Friday, January 06, 2006

C cedilha

Estou longe de casa, onde os meus naos nao tem til e minha cerveja gela na janela entreaberta. Mais uma vez. Faco planos. Deus! Nem sequer C cedilhas eu tenho!
Venho de longe, sempre digo. Nao sei sambar e nao gosto de futebol, mas me redimo quando ensino o profissionalissimo corte persa que se da no limao da caipirinha. Tiro o amargo em duas facadas. Sou assim... Caipirinha. Tiro o amargo mesmo, acucar um bocado (por favor, quero meus C cedilhas), e cana muita(cana que eu digo e me, birinaite). Azedo, doce e inebriante. Longe de casa eu sou uma "boa ideia" dispersa da dispersa imagem do meu pais aqui fora. Dou tres sorrisos e me saio sempre que alguem ensaia um samba ou me diz "Brasil? Ronallldoo!".
Ainda hoje e puro constrangimento quando me perguntam para que time eu torco. Torco para nao me fazerem essa pergunta. Sempre se inicia uma conversa desconversa, desastrosa, se eu comeco a explicar que nao gosto de futebol. Nao sei driblar mesmo. Sou frango nesse assunto.

Bem, mas estou longe de casa, de novo. Garrafa de Pitu custa 30 reais e feijao tem acucar.
Quando souber de mais novidades eu escrevo. Ou nao.

Fecharam minha janela. Vou tomar uma quente, enquanto as outras esfriam. Eu faco planos.
Penso no futuro. E por isso que estou aqui, pensando no passado.

Wednesday, July 20, 2005

As malditas mesas de vidro

Curiosa a festividade dos que se dizem puros e bons. À mesa, mil rostos redondos e sorrisos largos enfeitam os gestos mecânicos e as frases moldadas pela tradição e a conveniência.

Eles gargalham e suam aos montes. Falam do que devem e ouvem o quanto podem até que só lhes reste o semblante atencioso voltado ao outro enquanto pensam em qualquer outra coisa.

São ótimas e polidas pessoas. Puxam as cadeiras para as mulheres e nunca avançam no último pedaço de carne sobre o prato. Quanto de nossos receios sociais não estão naquele último pedaço de carne!

“Puros� e “bons� são apenas adjetivos que soam puros e bons. São palavras. Não somos assim. Somos dissimulados, desinteressados, receosos, assustados, fracos e potencialmente furiosos.

Sob a mesa, os sapatos fora dos pés e as meias furadas e fedidas são o que nos resta de autenticidade. Que desconforto as malditas mesas de vidro! Translúcidas não nos deixam deleitarmos com o íntimo de nós mesmos. Nem mesmo quando estamos com a face respeitosa bem posta sobre serena gravata.

Que seria de nós se fossem assim translúcidos os nossos gestos, os nossos desejos e toda aquela conversa saudosa e fiada que nos sai da boca?


Dário Castro

Monday, July 18, 2005

Odre de carvalho

“Bem-vindo ao meu recanto�, disse aquela figura tosca com olhos de curiosas pupilas. Estendi a mão com cautela e esmero pavor do monstrengo que me aceitava em seu lar. Tomei suas palavras em odre de carvalho até que por sensatez, ou por não me restar alternativa vária, eu lhe devolvi o orbe objeto vazio.

“Enche-o para mim com as palavras que tu trouxeste�, pediu. Será amargo para tal criatura o que trago e tenho costume de oferecer aos outros? Repensei e ainda não sabia se me apetecia o que ele havia me servido. Decerto não me causou fastio.

Seus goles eram ávidos e sequiosos. O monstro me tomou a garrafa e a bebeu. Limpou a boca com as costas da mão e lacrimejando e tossindo balbuciou palavras incompreensíveis. As repetiu, quando pôde, para que eu entendesse. Falava de remorsos e fúria com sabor de remédio e corpo víneo. Não havia nada disso naquele odre. Falava de solidão e esperançosa virtude, mas se equivocava quando identificava algo de amargo e vaporoso. O que o teria confundido? Os resquícios das suas próprias idéias que ficaram no recipiente? Teria o a essência do carvalho impregnado o líquido verborrágico?

Demorou para que eu entendesse o que de fato havia acontecido. E não foi naquele dia. Saí de lá com um saco de perguntas debaixo do braço e um olhar vago e vagaroso. “Maldito monstro!�, pensava eu. “A língua asquerosa não entendeu ao certo do que se tratava aquilo que sorvia. O estômago das trevas ou pântanos rejeitava o sabor puro das minhas palavras�.

Hoje, menos consternado, tenho mais uma certeza para guardar comigo e mostrar a quem me queira ouvir. Estava inebriado de minhas próprias palavras a ponto de imaginar tal monstro no rosto de um qualquer que me acolheu em seu recanto.

O medo que senti da sua feição e trejeito caíram sobre o odre e o apodreceram. E talvez esse encontro não se deu além da minha imaginação, onde me encontro e me perco; onde me faço destroços de palavras e devaneio de mim mesmo.


Dário Castro

Tuesday, July 12, 2005

Soneto em alemão

Der Verrückte

Ach! Ich bin der Zustand meiner Neugier und Mut
Auch der beste Zugang meines Sinnes Absicht
Ich bin der Anfang meiner Allergrössten Wut
Und wohl der Verrückt, der über alles Spricht

Ich bin der, der Unsinnen Als ein Meister tut
Und meisten Regeln für Spass und umsonst bricht
Ich bin der Verrückte, und alles mache ich Kapputt
Ich bin ja der Bestreiter, was anderes nicht!

Wenn - am ende des Tages - ich danach mich frage
Was ich denn, wirklich in meinem Innerste trage
Komme ich immer zur dieselbe Antwort an

Also verstehe ich, was mein Verständniss noch hält:
“Eine Hoffnung, die in manchen herzen doch fällt
Eine Bedeutung, die vieles bedeuten kann!�

(Dário Castro)

O louco

Eu sou a condição da minha curiosidade e ânimo
Também o melhor acesso para a intenção do meu íntimo
Eu sou o começo para a maior de minhas dores
E, de agrado, o louco que sobre tudo fala

Eu sou o que faz tolices como um mestre
E muitas regras quebra por diversão, sem motivo
Eu sou o louco e de tudo faço destroços
Eu sou o contestador e nada mais!

Quando ao fim do dia eu me pergunto
O que, de verdade, trago em mim
Chego sempre à mesma resposta

Então entendo o que ainda traz meu entendimento:
“Uma esperança que falta, sim, em muitos corações
Um significado que muito pode significar!�
(Dário Castro)

Friday, June 10, 2005

Resgate cômico-nostálgico


POKÉMON DE OURO (A LENDA)


É da montanha colossal que o céu retalha
Que destemido, desce a cada ano o campeão
E imponente, sagaz, no campo de batalha
Devora suas vítimas com plena devoção


O pokémon de ouro recebe sua medalha
Reconhecido e aplaudido na multidão...
E seu brilho como as chamas de uma fornalha
Atrai, seja por inveja ou admiração


Ele volta à montanha gigantesca e calma
E durante a noite sua luz imita o dia
Com sentimento de vitória duradouro


Quando sente sede de admiração, sua alma
Então ecoa da montanha em uma ventania
E vem buscar seu destino, o pokémon de ouro!


Dário Castro


Pokemón de Ouro era o título dado àquele que pegasse mais mulher no carnaval. Podia ser que por qualidade se ganhasse também. Muito importante para a decisão do júri era quantos "Porta aberta, céu risonho" o candidato a Pokemón de Ouro dizia durante as festas. Essa frase só podia ser proferida em ocasiões de êxtase sincero ocasionadas pelo relacionamento sexual fugaz e primoroso dos dias de carnaval.

O poema reflete o significado do honroso título que nos últimos carnavais fora esquecido. É com sabor de nostalgia que o coloco aqui hoje.

Até sobre besteira dá pra se falar sério.

Poema de rima rápida


Num Formigueiro


Num formigueiro certo dia
Se discutia
A grandeza das formigas


Velhas folhas eram lidas
E erguidas
As folhas mais antigas


O formigueiro se exaltava
Quando se falava
Da velha profecia:


“Nós, formigas, destinadas
Por mãos sagradas
Fomos um belo dia...�


E de repente um espanto
Lá do canto
Uma delas falou:


“Não acredito nessa fábula
Que um rábula
Um dia me contou


Que somos donas do mundo
Pois no fundo
Sou bem curiosa


Essa resposta tão grosseira
Não é verdadeira
Tão pouco é honrosa!


Para quê acreditar
Que há
Uma predestinação


Que somos superiores
Os tais senhores
Da razão?


Eu antes prefiro crer
Que vou morrer
Que é só isso


E aproveitar a vida
Bem resolvida
É o meu compromisso�


O formigueiro se calou
Não acreditou
Em tamanho abuso


De uma formiga insolente
Uma descrente
De falar confuso


Então, despidas de piedade
Com perversidade
A condenaram


A ficar sempre calada
No canto isolada
E a ignoraram...


O tempo passou
Ninguém mais falou
Desse acontecido


E a condenada
A tempos ignorada
Já havia morrido


Aquela que contestava
O que se acreditava
Tinha o mesmo fim


Às que queria ajudar
Proibiam-lhe de falar
E sempre foi assim


Mas no canto
No entanto
Algumas sempre havia


Estas pagavam
Porque negavam
Aceitar a profecia


E as outras com medo
Ou desde cedo
Alienadas


Nunca se manifestavam
Sempre ficavam
Completamente caladas


E assim continuou
O tempo passou
E o formigueiro


Celebrava sua grandeza
A natureza
Do ser primeiro


Até que um dia
Por sarcástica ironia
Um fogaréu


Causou-lhe um fim eterno
Nenhuma foi para o inferno
E nenhuma foi para o céu





Dário Castro


Thursday, June 09, 2005

A identidade do jornalista em pauta

Resposta ao texto escrito por Ricardo A. Setti no observatório da imprensa

Pior que não ver nada em lugar nenhum é ver uma só coisa em todo lugar.


Setti, em “O canto da sereia da celebridade� irroga ao jornalista a responsabilidade do espetáculo e da exaltação midiática e teme pelo dano à “imagem de austeridade e independência dos jornalistas�.


Abramos mais os olhos.


O Brasil é um país de tradição oral, dos homens de palco ou praça pública que transmitiam aos analfabetos os ocorridos do dia e os entretiam; é um país cujos atores de telenovelas são agredidos ou afagados como se o papel que interpretam nas telas fosse, pois, realidade; é o país no qual milhares de pessoas se perguntam como é possível alguém que foi dado como morto no jornal de ontem aparecer vivíssimo no dia próximo. Aqui se mistura arroz e feijão, fato e ficção, notícia e propaganda tudo no mesmo prato.


Qualquer profissional que leve a sério seu trabalho entende como aprovação deste o reconhecimento do público. Para os atores, por exemplo, os tapas e xingamentos que os possam esperar nas ruas são frutos, talvez amargos, da sua atuação impecável. O que é um erro.


Voltemos ao jornalista. Se ele torna-se célebre por meio dessa tradição de tagarelas e analfabetos que impele para outros meios com menor alcance de público os “jornalistas sérios�, devemos talvez lastimar tal realidade, mas apontar subjugando o jornalista-estrela é um equívoco.


Estaríamos assim negligenciando tanto questões mais gerais quanto interesses pessoais e contribuindo para demonizar certos indivíduos e procedimentos bem como para fermentar essa noção limitada e arcaica de um mundo de valores sólidos, imutáveis, no qual o bem e o mal lutam entre si e os indivíduos se agarram aos seus receios e noções e louvam a deuses, heróis e as tais celebridades sem que percebam que com isso falam a si mesmos e se convencem: “não tenho nada a ver com isso�.


Vivemos a era do espetáculo e este não é feito de apresentadores apenas. Há uma platéia que reprova ou aprova ao que assiste; há um espaço privado onde os shows, escolhidos por critérios de lucro, são realizados. Se formos, mesmo assim, melindrosos exigir qualquer comportamento vário de quem se apresenta no palco e esperar que ele profira suas palavras entre as vaias da maioria e o risco de perder aquele espaço para sempre, estaríamos impondo um comportamento heróico, divino ou louco que maravilha a todos, mas que ninguém depois do tal cristo o que ensejar com a mesma intensidade e comprometimento.


Enquanto as pessoas não despertarem e ninguém as incomodarem o sono bom, é melhor ser algo como Deus no céu que Cristo no crucifixo, Ana Paula.

Dário Castro